phillippelevidad
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O que na cultura atual você acha que não vai envelhecer bem?
Pessoas deixando pra assumirem papel de adultos somente depois dos 30, já que agora parece que isso ficou normal. O pessoal não consegue mais tolerar desconforto, tem medo de responsabilidade e compromisso. Parte disso se deve a problemas reais, como custo de vida mais elevado e maior dificuldade de conseguir emprego, mas outra parte é culpa de uma infantilização prolongada, com busca excessiva (talvez exclusiva) de conforto e alergia à frustração. Vida adulta exige ter disciplina para fazer o que é necessário mesmo sem estar com vontade. O pessoal tem corrido disso, e funciona enquanto os pais sustentarem, mas daqui a pouco vai ser essa geração criando uma próxima ainda mais insegura, e quem sabe sem condição de sustentar a mesma situação por tanto tempo. Não acho que tenha como isso "envelhecer bem".
A gente conhece mesmo as pessoas ou conhece a forma como elas aparecem pra gente?
Com certeza, a forma como elas aparecem. As redes sociais que o digam: as pessoas se mostram bem-sucedidas e felizes, mesmo quando estão morrendo por dentro, de acordo com matérias e estudos que não faltam por aí. Mesmo fora das redes sociais, a gente tende a se vestir de um jeito e a se comportar de uma forma considerada apropriada para a sociedade em geral e/ou para um círculo específico. Tipo, você nunca usa terno, mas usa no casamento do amigo, pra "parecer gente" pelo menos por um dia. A gente também espera que as pessoas se pareçam de uma certa forma, dependendo de quem sejam ou do contexto. Por exemplo, a expectativa sobre um bom advogado é que ele se vista bem, tenha um carro massa e um escritório imponente, pois, do contrário... talvez ele não ganhe causas? Como o Gabriel falou, a gente mesmo não se conhece 100%, mas está sempre querendo ser visto ou percebido de uma determinada forma, geralmente algo que não somos. Queremos ser mais daquilo ou menos daquilo, e por isso usamos máscaras e adicionamos filtros, até pra nós mesmos. Aliás, tem um livro interessante sobre esse tema, chamado *O Cavaleiro Preso na Armadura*. Além da forma como a pessoa se apresenta, tem a forma como a gente interpreta, o que é um outro filtro, do nosso lado, que nos informa sobre a outra pessoa de acordo com as nossas próprias expectativas. Por fim, acho que conhecemos as pessoas por um misto de *como elas se revelam* e *como somos capazes de percebê-las*.
Qual hábito social te parece mais automático do que verdadeiro?
"Vamos marcar qualquer dia", haha, aquela proposta sem qualquer intenção de execução! Essa frase é engraçada porque, se parar pra pensar, ela foi montada cuidadosamente, sendo quase uma arte da fuga social: * Vamos: Clássico "cachorro sem dono morre de fome", porque não deixa um responsável * Marcar: Joga pro futuro * Qualquer dia: Sem prazo
Você acha que sua personalidade mudou muito ou só ficou mais visível com o tempo?
Mudou muito. Pra responder, fiquei pensando como eu definiria personalidade, e cheguei em "a forma como a pessoa se expressa na vida". Essa forma é produto de coisas racionais e conscientes, como valores, crenças e hábitos, juntamente com coisas do inconsciente, como instinto, traumas e marcas que nem sempre escolhemos carregar. As coisas do nível consciente são escolhas, e as do nível inconsciente podem se tornar escolhas (e, portanto, serem alteradas) através de reflexão, terapias, meditação, programas de desenvolvimento pessoal, entre outros. Enquanto pensava em tudo isso, me veio à mente o título do livro "Ecce Homo - Como alguém se torna o que é", especialmente interessante no contexto dessa pergunta. Afinal, você não precisa se tornar aquilo que já é. O título do livro, então, remete a uma afirmação do ser, uma construção ativa, que é precisamente uma das propostas de Nietzsche. Ao discutir isso com minha esposa, ela propôs uma analogia brilhante: a semente de uma árvore já é uma árvore em potencial, ou uma árvore em essência. Mas isso é só metade da história. A árvore que essa semente vai se tornar será grandemente influenciada pelo solo onde for plantada, pelo clima, pela vegetação e vida animal ao seu redor. Note que duas sementes da mesma espécie no mesmo terreno não se tornam a mesma árvore! Concluindo, talvez exista uma essência, mas personalidade não é só aquilo que nos acontece; é aquilo que fazemos com o que nos acontece. É o filtro que escolhemos usar pra dar sentido a tudo isso, algo extremamente mutável.
Qual escolha parece pequena, mas muda muito o rumo de uma vida?
Excelente pergunta! E consigo pensar várias coisas, mas vou escolher: A narrativa que você escolhe sobre si mesmo. "Sou assim mesmo", "Não sou bom nisso", "Nunca tive disciplina"... parece descrição, mas é programação, porque você não está simplesmente relatando a realidade, está escrevendo um código pra ela. --- Mas tem outras duas que me passaram pela cabeça e não poderia deixar decompartilhar: - O que você faz quando não tem ninguém olhando: Você estuda ou rola feed? Treina ou negocia com seu eu preguiçoso? Executa ou procrastina? - Dizer "sim" quando deveria dizer "não": Você drena seu tempo com a coisa errada, desperdiça energia preciosa, e ainda treina os outros a usarem você, kk
Qual o melhor livro que você já leu e por quê?
"Ecce Homo - Como alguém se torna o que é", a autobiografia de Friedrich Nietzsche. Acho que, mais que um livro, este é um caco de vidro que corta só de encostar. Nietzsche foi um filósofo que veio para desafiar tudo o que se tinha estabelecido até então em termos de valores e morais sociais. Li a autobiografia depois de ter lido seu "Assim falou Zarathustra", extremamente simbólico, enigmático e controverso. O Zarathustra pôs várias questões importantes na minha cabeça, e o *Ecce Homo* mexeu com vontade o Nescau no fundo do copo, por ser um livro que praticamente induz à autoanálise, sem anestesia e com muito daquele mertiolate das antigas. Estou chegando aos meus 40, e esse livro tem sido pedra fundamental em várias reflexões. Me pôs a pensar: se eu fosse escrever minha autobiografia hoje, seria com orgulho ou justificativas? Defenderia minhas escolhas ou explicaria por que não tive escolha?
Qual fase da vida você acha que as pessoas idealizam mais do que deveriam?
Todas, menos a fase atual. Quando crianças, queremos ser adultos para ter dinheiro e fazermos o que quisermos. Temos todo o tempo do mundo, mas falta autonomia. Quando adultos, queremos voltar a ser crianças para dar um tempo nas responsabilidades, ou queremos ser velhos para curtir a aposentadoria. Nessa fase, enfrentamos decisões difíceis, algumas irreversíveis, geralmente com pouca informação. Temos energia, mas falta direção. Tem também a meia-idade, quando temos dinheiro e clareza (espera-se), mas o tempo foi pro espaço e a energia dos 20 já vai dando tchau. Hoje eu estou aqui. Quando idosos, o pessoal quer voltar aos 20 ou 30 para ter novamente o tempo e toda aquela energia. É uma idade de muita sabedoria, ou pelo menos perspectiva, mas o corpo não entrega mais. De todas essas, eu acho que a juventude ganha em termos de ser a mais idealizada por ser vendida como ápice (apesar de ser uma fase com uma boa dose de insegurança e erros ridículos). E a verdade é que a vida não é uma progressão linear de upgrades, mas sim um sistema de trade-offs.
Qual foi sua maior surpresa sobre ser adulto?
Que ninguém tem a menor ideia do que está fazendo 😆 Percebi que as pessoas que eu via como "autoridades" só tinham um vocabulário mais complicado pra justificar decisões sem fundamento. Entendi que confiança vem mais da repetição do que da certeza. Me liguei que o mundo é governado por versões mais velhas de estagiários no seu primeiro dia do seu primeiro emprego. Passei a ler filosofia e aprendi que Sócrates já tinha mapeado isso lá no século V a.C. quando disse "só sei que nada sei". Não tem ninguém no controle. Não tem manual, e você segue mesmo assim operando o sistema em produção. Libertador, não?